junho 12, 2004

O sentimento que inundou Portugal

Nunca vi coisa igual. Jamais sonhei ver estas imagens. Estou perfeitamente estupefacto.
É com muito espanto e mesmo muita admiração que reparo nesta vaga de bandeiras nacionais que, neste últimos dias, inundou Lisboa e arredores e, por aquilo que oiço, um pouco por todo o país.
São milhares as varandas, janelas, muros, estendais de casas particulares que ostentam bandeiras de Portugal dos mais diversos tamanhos. São carros, camionetas, motos e bicicletas que fazem vibrar ao vento as cores nacionais das ditas bandeiras. Em cada dia que passa, o rectângulo verde e vermelho floresce em mais um lugar como uma sementeira que se realiza todas as noites e que desabrocha no dia seguinte. Também muitas empresas e organismos vários acompanham esta onda. Parece que, de repente, toda a gente acordou com uma irreprimível necessidade de exibir o seu orgulho nacional.
Nós, portugueses, que não somos - parece-me - dados a manifestações de patriotismo exacerbado, talvez por uma questão de introversão de sentimentos, pelo menos quando comparados com gentes de outras nações, por exemplo, como os nossos vizinhos espanhóis que, por tudo e por nada, fazem valer o seu orgulho nacionalista. Nós, que nos ofuscamos diante do que é estrangeiro e vem de fora.
As ditas bandeiras vendem-se por tudo quanto é sítio. Em quantidades astronómicas. São os vendedores ambulantes, as lojas das “bugigangas”, as lojas da especialidade, os supermercados, o comércio tradicional.
Para além das bandeiras, são as conversas de toda a gente, de todos os quadrantes da sociedade, sobre o Euro 2004 e tudo o que, mais directa ou menos indirectamente, á volta dele gira. E em todas as conversa, o tom dominante é um sentimento de orgulho patriótico, de esperança e de confiança que parece ter inundado o espírito dos portugueses, de tal forma que já aparece uma ou outra voz a pedir contenção, não vá este clima de perfeita euforia colectiva acabar numa depressão profunda.

Este fenómeno desportivo, que vamos começar a viver ainda mais intensamente a partir de sábado, será um dos grandes acontecimentos nacionais das últimas décadas, que projectará fortemente o nome do país além fronteiras. O retorno dos dividendos desportivos e económicos será apreciável. Bem aproveitado, este Euro2004 poderá render bons lucros ao país, nomeadamente no sector do turismo, mesmo após o seu término, tal como aconteceu com a Expo98.
Mas atenção, o Euro2004 não vai resolver os graves problemas com que o país se debate.
Mais, este clima de optimismo e patriotismo que está a incendiar a população lusa deveria continuar a verificar-se após o fim deste Campeonato Europeu e projectar-se noutros campos, sob pena de não ter passado de um sopro efémero.
Independentemente da nossa classificação. Não podemos ficar à espera que onze homens – mais uns quantos que compõem todo o grupo de trabalho – salvem, em meia dúzia de dias, tudo aquilo que todos nós não fomos capazes de resolver nas últimas décadas.
Assim saibamos aproveitar este clima eufórico que se apoderou de nós, usemo-lo da melhor forma durante este torneio e continuemos a usá-lo de forma coerente nas próximas décadas.
Se tudo isto resultar positivamente poderemos dizer que o Euro2004 foi um bom investimento no nosso futuro.

Publicado por vmar em junho 12, 2004 12:15 AM
Comentários

Por acaso tb tinha reparado nisso e tens imensa razão, as pessoas devem pensar que o euro ira melhorar algo e por isso mostram tanto patriotismo.... Um beijo doce

Afixado por: MissLadyMystery em junho 12, 2004 12:49 AM

Sem dúvida que se está a tornar numa inusitada manifestação popular, embora julgue que a mesma corresponde ao apelo do seleccionador. Se tudo correr bem como espero e desejo, neste particular poderemos orgulhar-nos porque demonstramos ao Mundo que também possuimos capacidade organizativa para eventos desta dimensão. Julgo também que se revitalizará o sector da industria hoteleira, restauração e similares. No entanto nada mais do que isso esta realização representará para o País a não ser a sua projecção além fronteiras que eventualmente possam suscitar interesse a alguns turistas. Os problemas com que nos debatemos persistirão, óbviamente.

Afixado por: congeminações em junho 12, 2004 11:01 AM

"e depois do adeus..."???

Afixado por: Golfinho em junho 12, 2004 04:03 PM

é assim ,não gosto particularmente da nossa bandeira.Tenho direito a não gostar não é verdade?Não gosto das cores ,não gosto do simbolismo...gostava que tivessemos outra.
Tb reparei que o euro anda ,sem crer ou intencionalmente pela classe politica a criar uma ilusóra sensação de que tudo vai melhorar!Infelizmente não vai ser o caso, a economia não vai melhorar nos proximos tempos , e o "depois "vai ser um desanimo.Tb compreendo que um país que está a viver tão mal se agarre a tudo...afinal pouco mais há.
Por fim não concordo que se tenha gasto tanto dinheiro só em estádios.

Afixado por: annie hall em junho 12, 2004 10:06 PM